16 de dezembro de 2019

[Resenha] O sol na cabeça

O SOL NA CABEÇA
Autor (a): Geovani Martins
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2018
Páginas: 120
Classificação: 4/5

Sinopse: Em O sol na cabeça, Geovani Martins narra a infância e a adolescência de garotos para quem às angústias e dificuldades inerentes à idade soma-se a violência de crescer no lado menos favorecido da “Cidade partida”, o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XXI.
Em “Rolézim”, uma turma de adolescentes vai à praia no verão de 2015, quando a PM fluminense, em nome do combate aos arrastões, fazia marcação cerrada aos meninos de favela que pretendessem chegar às areias da Zona Sul. Em “A história do Periquito e do Macaco”, assistimos às mudanças ocorridas na Rocinha após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP. Situado em 2013, quando a maioria da classe média carioca ainda via a iniciativa do secretário de segurança José Beltrame como a panaceia contra todos os males, o conto mostra que, para a população sob o controle da polícia, o segundo “P” da sigla não era exatamente uma realidade. Em “Estação Padre Miguel”, cinco amigos se veem sob a mira dos fuzis dos traficantes locais.
Nesses e nos outros contos, chama a atenção a capacidade narrativa do escritor, pintando com cores vivas personagens e ambientes sem nunca perder o suspense e o foco na ação. Na literatura brasileira contemporânea, que tantas vezes negligencia a trama em favor de supostas experimentações formais, O sol na cabeça surge como uma mais que bem-vinda novidade.



Olá leitores do Pacote Literário!

Hoje estou aqui para lhes contar um pouco sobre esse livro de autor nacional que tem uma escrita bastante peculiar. Trata-se de "O sol na cabeça", uma reunião de contos sobre como é a vida nas comunidades do Rio de Janeiro.

Primeiramente, quero falar do autor, Geovani Martins, que nasceu em Bangu e mora no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Sempre foi fascinado por histórias, desde os gibis da infância, mas foi nos contos dessa obra que pôde mostrar ao mundo tudo o que seus olhos conseguiram absorver da vida nas comunidades de sua cidade.

Este livro foi lido por Lázaro Ramos, João Moreira Salles e até por Chico Buarque e, após, postado nas redes sociais com diversos elogios! Lançado inicialmente em 11 países, o livro já tem proposta de adaptação ao cinema. E agora vou contar para vocês o motivo de tanto "alvoroço"!



Primeiramente, quero falar dos personagens! Muito bem pensados, são jovens (às vezes, extremamente jovens) que passam pelos desafios, medos e privações de residirem à margem da sociedade, em vilas e favelas e tentam sobreviver à "indústria do tráfico", às mazelas do poder público, às ações da polícia, dentre outras situações por que passam diariamente.

Uma coisa fica nítida em toda a narração: quem manda no morro é quem tem poder. Quem tem poder é quem tem dinheiro. E quem tem dinheiro são os traficantes, os "donos do morro"!

A história de passa no Rio de Janeiro, uma das maiores capitais do país, e é impressionante imaginar que, em alguns lugares, a lei não chega e nem é cumprida. O que impera é a regra do tráfico, como vocês podem imaginar, repleta de jogos de ego e da tomada e retomada de poder. Toque de recolher, horário para transitar em determidados locais e fazer determinada atividade e até ordem para cessarem alguns crimes são dadas (e seguidas) como um verdadeiro estado paralelo. É o verdadeiro "manda quem pode, obedece quem tem juízo!".

De uma mulher simples que precisa se prostituir para sustentar seu vício em drogas pesadas a um adolescente que atravessa a cidade em busca do melhor "baseado", são várias as histórias narradas pelo autor, com desfechos extremamente interessantes ou, no mínimo, curiosos. Aliás, os finais dos contos foram um ponto polêmico para mim, pois alguns simplesmente não têm um final, acabam de repente e deixam o leitor "no vácuo" e foi exatamente isso o que me fez tirar um pontinho na classificação do livro (apesar de sentir que o autor possa ter feito isso de propósito para causar alguma reflexão)!



Em primeira pessoa e com um linguajar bastante peculiar, alguns personagens nos contam as agruras de sua vida e as dificuldades em sair do vício ou do poder dos traficantes. Alguns são submetidos àquelas regras mesmo sem efetivamente comprar ou fazer uso de drogas.


Durante a leitura, não pude deixar de me lembrar do final da música "Hey, Joe", da banda O Rappa, que narra:

"Menos de 5% dos caras do local são dedicados a alguma atividade marginal e impressionam quando aparecem nos jornais tapando a cara com trapos, com uma uzi na mão, parecendo árabes do caos. Sinto muito cumpadi, mas é burrice pensar que esses caras é que são os donos da biografia, já que a grande maioria daria um livro por dia sobre arte, honestidade e sacrifício" 

Em uma frase, a composição nos traz um perfeito retrato da vida em grandes cidades. Apesar da imensidão das comunidades, vilas e favelas, poucos de seus moradores são criminosos, mas estes conseguem muitas vezes dominar toda aquela comunidade. Isso foi o que me transmitiu também a narrativa de Geovani!

O livro é ficcional, mas tenho certeza de que todas as histórias se baseiam em circunstâncias reais que o autor viveu, observou ou tomou conhecimento de alguma maneira.
Mais uma escrita nacional interessantíssima à qual tenho acesso e da qual me orgulho muito!

Um livro para ser lido por todos, sem distinção, pois é importante sabermos mais sobre esse dia-a-dia que está tão longe e tão perto de nós!

E você, já leu este livro ou outros que abordem tais questões? O que achou? Conte-nos nos comentários!




2 comentários:

  1. Oi querida!
    Eu li este livro logo que foi lançado e gostei muito!
    Tive o prazer de assistir uma palestra do Giovani e fiquei impressionada com ele, apesar do ambiente adverso que foi criado, é um cara que leu muito, desde pequeno e tenho certeza que isso fez muita diferença na sua trajetória.
    Discutimos também este livro no nosso clube da leitura e foi sensacional!
    Adorei o post e a dica
    Bjs
    Claudia

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    Respostas
    1. Ah que bacana, Clauo, ele realmente é de se impressionar! Tão jovem e talentoso, não é mesmo? Obrigada por seu comentário! Beijos!

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